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(pt) Italy, FAI, Umanita Nova #2-26 - Irã: Crise Sistêmica. Repressão e Revolta Contra a Lógica do Poder (ca, de, en, it, tr)[traduccion automatica]
Date
Fri, 6 Mar 2026 07:29:45 +0200
Nos últimos meses, a situação interna no Irã mergulhou em uma crise
histórica, marcando um ponto de ruptura no longo conflito entre o regime
teocrático da República Islâmica e uma população cada vez mais exausta
por anos de estagnação econômica, em grande parte devido às sanções dos
EUA, à repressão política e religiosa e à desigualdade estrutural. Os
protestos que irromperam na noite de 27 de dezembro de 2025 não são um
fenômeno isolado; fazem parte de uma dinâmica de tensões sociais e
geopolíticas acumuladas que demonstram como o sistema político iraniano
atingiu um ponto crítico.
Superficialmente, o gatilho imediato para a mobilização foi econômico: o
colapso da moeda nacional, a inflação galopante e o fardo insustentável
das sanções financeiras internacionais (principalmente dos EUA), que
bloquearam aproximadamente US$ 100 bilhões em fundos iranianos no
exterior, levaram o tecido produtivo e social à beira do colapso.
Segundo fontes internacionais, a inflação ultrapassou os 50% e milhões
de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, enquanto segmentos
substanciais da população enfrentam a escassez de bens essenciais.
O governo e as forças armadas iranianas classificam os protestos como
orquestrados por um inimigo externo. Este não é um argumento novo para a
propaganda do regime, que utiliza essa retórica para justificar a dura
repressão e apelar à unidade nacional. Contudo, existe, sem dúvida, um
padrão de tensão extremamente elevada entre os dois países. Alguns
analistas interpretam a situação atual como uma continuação indireta da
Guerra dos Doze Dias de 2025, argumentando que o conflito com Israel
continua, ainda que não declarado. Os próprios israelenses declararam
apoio aos protestos, enquanto Donald Trump - politicamente fortalecido
por recentes ações imperialistas na América Latina - continua a ameaçar
abertamente o Irã. A resposta de Teerã é igualmente clara: qualquer
ataque envolveria ataques contra bases americanas na região e,
possivelmente, contra o próprio Israel. Um elemento particularmente
significativo desta fase é o envio direto do exército regular às ruas em
apoio ao governo, algo sem precedentes em comparação com muitos
protestos anteriores. Isso sinaliza que as autoridades não consideram
mais a dissidência como uma questão interna administrável, mas sim como
uma ameaça existencial, potencialmente ligada a uma guerra regional
envolvendo os EUA e Israel.
O Irã vivenciou grandes ondas de protestos em 1999, 2009, 2017, 2019 e
2022, mas a fase atual apresenta novos elementos. Em 2009, a principal
reivindicação era por eleições justas; hoje, o lema é frequentemente a
mudança de regime, embora de forma contraditória. Os protestos parecem
estar ocorrendo predominantemente à noite (embora os protestos diurnos
estejam aumentando nos últimos tempos), adaptando-se a um contexto
altamente militarizado, e são geograficamente mais disseminados do que
os dados disponíveis sugerem.
As autoridades iranianas impuseram um bloqueio nacional da internet a
partir de 8 de janeiro de 2026, cortando o acesso às comunicações
digitais como ferramenta de controle social, e intensificaram o uso de
violência brutal contra os manifestantes. Não apenas organizações
humanitárias como a Human Rights Watch, mas também o próprio governo
iraniano relatam milhares de mortes. O número de feridos e presos varia
conforme a fonte, mas, mesmo assim, é extremamente alto. Enquanto isso,
a mídia estrangeira tenta documentar os eventos apesar do bloqueio de
informações. As imagens que emergem - embora fragmentárias, devido à
censura - revelam uma repressão indiscriminada, incluindo o assassinato
de civis e detenções arbitrárias. Essa escalada de violência evidencia a
natureza da República Islâmica: um aparato altamente militarizado que
exerce poder por meio de uma complexa rede de forças de segurança,
incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), que detém um quase
monopólio da violência "legítima".
Os slogans que ecoam nas ruas são variados - "Morte a Khamenei", "Basij,
Sepah, ISIS: vocês são todos iguais" - expressando também uma raiva que
já não distingue entre aparatos repressivos internos e lógicas globais
de violência. Essa equivalência simbólica revela uma consciência
generalizada: o problema não é um único líder ou facção, mas um sistema
inteiro fundado na coerção, na hierarquia e na gestão autoritária da
sociedade.
Um dos aspectos mais marcantes da mobilização atual é a ausência de uma
liderança reconhecida ou de forças políticas tradicionais capazes de
dirigi-la. Os protestos parecem estar organizados horizontalmente, com
base em redes informais, relações comunitárias, comércios locais e -
quando possível - no uso das redes sociais (quase toda a internet foi
bloqueada nos últimos dias). Essa estrutura reflete tanto uma escolha
política implícita quanto uma necessidade material, visto que quase
todas as organizações de base foram sistematicamente destruídas pelo
regime ao longo dos anos. Nesse cenário, alguns setores dentro do regime
tentam propor uma interpretação "reformista", apresentando-se como uma
alternativa moderada ao colapso. Isso, no entanto, é uma tentativa
transparente de reaproveitar as mesmas elites sob novos rótulos, uma
estratégia bem conhecida que visa preservar a ordem vigente alterando
apenas sua estética (nosso Leopardo).
Ao mesmo tempo, Reza Pahlavi, filho do último Xá (Rei), tenta se
apropriar simbolicamente dos protestos. Apesar de ter alguns apoiadores,
a maioria dos quais vive no exterior, sua figura permanece atrelada a um
passado autoritário e a uma clara postura pró-americana. O fato de
algumas vozes hoje clamarem por um "retorno à monarquia" não indica uma
genuína nostalgia popular, mas sim o vácuo político criado por décadas
de repressão, no qual qualquer alternativa é apresentada como preferível
ao status quo.
Geopoliticamente, o Irã é percebido como um ator-chave no Oriente Médio,
não apenas por seu programa nuclear e sua influência sobre milícias
aliadas (Hezbollah, milícias xiitas no Iraque e na Síria), mas também
por suas relações com potências globais como a Rússia e a China. A
intervenção dos EUA, de Israel ou de seus aliados, embora atualmente
pareça uma ameaça um tanto atenuada, permanece possível.
A análise dominante tende a interpretar a crise como um risco para a
estabilidade regional e para os mercados de energia, enfatizando a
dinâmica do equilíbrio de poder entre as potências concorrentes. Segundo
alguns relatos, a instabilidade iraniana pode impactar os preços do
petróleo e a segurança do Estreito de Ormuz, um centro crucial para as
exportações globais de energia. Mas isso poderia, sem dúvida, ter
consequências negativas adicionais para as economias chinesa e russa,
bem como para a Europa, contradizendo, assim, o que atualmente parecem
ser os interesses dos EUA.
A crise iraniana não é simplesmente uma luta entre governos e
manifestantes, nem um fenômeno ao qual se possam aplicar pacotes de
reformas democráticas importadas. Em vez disso, revela os profundos
limites do poder estatal e as estruturas hierárquicas que dominam as
sociedades modernas.
O Estado teocrático iraniano não é uma entidade neutra da qual se possa
obter maior liberdade, mas um aparato coercitivo baseado no monopólio da
violência e na gestão burocrática da sociedade. As desigualdades
econômicas e a falta de autonomia social não são acidentais, mas estão
enraizadas no próprio funcionamento do Estado e do capitalismo global.
Os protestos de 2025-2026 não são um súbito surto de agressão, mas uma
expressão de profundos anseios por autodeterminação, solidariedade
comunitária e rejeição das hierarquias impostas de cima para baixo.
Movimentos como Mulheres, Vida, Liberdade no Irã representam muito mais
do que uma simples oposição reformista: eles incorporam uma crítica
radical aos próprios fundamentos do poder. Vinculam as reivindicações
por liberdade individual e coletiva à luta contra múltiplas opressões -
de gênero, econômica, étnica e política - numa visão que rejeita todas
as formas de dominação.
Essa também é a posição da Frente Anarquista Iraniana (Anarchist Front),
fundada em 2009 pela fusão da Voz do Anarquismo e da Era do Anarquismo,
atuante principalmente no Irã e no Afeganistão. Em entrevista concedida
ao freedomnews.org.uk em 5 de janeiro, a Frente descreveu os protestos
como genuínos (e espontâneos), reconhecendo a presença de influências
externas, mas rejeitando a ideia de que sejam a causa principal. Para os
anarquistas iranianos, a raiz da revolta é, sem dúvida, econômica, mas
sobretudo política e estrutural: uma rebelião contra a própria lógica do
poder. Um membro da Frente, Afshin Heyratian, está atualmente detido na
Prisão de Evin, um símbolo histórico da repressão política no Irã. A
Frente se opõe firmemente a qualquer intervenção ocidental,
estadunidense ou israelense e não se define como uma organização
militar. No entanto, não descarta a possibilidade de reorganização caso
as circunstâncias o exijam.
Nós, anarquistas, esperamos que o objetivo deste movimento
revolucionário não seja substituir uma elite dominante por outra, nem
usar o aparato estatal para proteger os direitos civis. Uma vez que o
Estado moderno se funda na divisão vertical do poder e na dependência da
violência institucionalizada, a verdadeira emancipação só é alcançada
por meio da construção de formas horizontais, cooperativas e
radicalmente democráticas de auto-organização, capazes de romper com as
estruturas coercitivas tradicionais. Em outras palavras, a revolução não
se trata simplesmente de derrubar governantes, mas de superar as
próprias estruturas de poder estatal que os produziram.
A crise iraniana, portanto, apresenta-se em múltiplas camadas: é uma
luta interna pelo poder, uma questão de dinâmica geopolítica global e,
ao mesmo tempo, um reflexo das tensões insustentáveis geradas pelo
Estado e pelo capitalismo contemporâneo. Os eventos em curso têm um peso
que transcende as fronteiras nacionais, pois questionam não apenas um
regime autoritário, mas o próprio conceito de legitimidade política
baseado na coerção. A sinergia entre o amplo protesto social e a crítica
radical à autoridade poderia - se cultivada com consciência e
solidariedade internacional - representar não apenas uma mudança de
governo, mas o início de uma transformação radical da sociedade iraniana
e, por extensão, das estruturas de poder em todo o mundo.
Gabriele Cammarata
https://umanitanova.org/iran-crisi-sistemica-repressione-e-rivolta-contro-la-logica-del-potere/
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